"Sempre fomos livres nas profundezas de nosso coração, totalmente livres, homens e mulheres.
Fomos escravos no mundo externo, mas homens e mulheres livres em nossa alma e espírito."
Maharal de Praga (1525-1609)

sexta-feira, 30 de maio de 2014

BENDITO SEJA ELE

Ter o ETERNO, como Senhor da existência pode até parecer fácil, e até o é. Mas para que esse comportamento se torne fácil, como deve ser, se faz necessário uma certeza absoluta, e essa sim, só é fácil para quem sabe de onde vem o socorro, para quem realmente sabe que ELE existe e é recompensador de quem tem medo d’Ele.

Não tenho muito a falar hoje, quero apenas repartir com você um dos Salmos da leitura diária, o de número 146. Ao ler esse Salmo, minha alma se encheu do silencioso som que somente a verdade pode produzir dentro de quem a busca e a encontra. Um barulho ensurdecedor, tão grande que fica difícil desdobra-lo em palavras. Mas é um barulho silente, íntimo, absurdamente quieto.

Deixo o Salmo para sua meditação.
Com as Bênçãos do ETERNO.

“Halleluyah! (Bendito sela ELE!)

Louve a ADONAI, minha alma!
Louvarei ADONAI enquanto eu viver.
Cantarei louvores a meu Deus toda a minha vida.

Não ponha sua confiança em príncipes ou em mortais, que não podem socorrer.
Quando dão seu último suspiro, voltam ao pó, e naquele mesmo momento todos os seus planos se vão.

Feliz aquele cujo socorro é o Deus de Ya’akov, cuja esperança está em ADONAI, seu Deus.
Ele fez o céu e a terra, o mar e todas as coisas nele, e mantém Sua fidelidade para sempre.

Assegura a justiça para o oprimido e dá alimento ao faminto.
ADONAI liberta os prisioneiros.
ADONAI abre os olhos dos cegos.
ADONAI levanta os que estão desfalecidos.
ADONAI ama o justo.
ADONAI protege os estrangeiros e sustenta o órfão e a viúva, mas o caminho do ímpio, ele transtorna.

ADONAI reinará para sempre; seu Deus, Tziyon, por todas as gerações.

Halleluyah! (Bendito sela ELE!)”


domingo, 18 de maio de 2014

CEGO, É QUEM NÃO QUER ENXERGAR.



“Eles chegaram a Beit-Tzaidah. Algumas pessoas lhe trouxeram um cego e imploraram que Yeshua tocasse nele. 23 Tomando o cego pela mão, ele o levou para fora da cidade. Cuspiu em seus olhos, pôs as mãos sobre o homem e lhe perguntou: ‘Você vê algo?’. O homem olhou para cima e disse: ‘Vejo pessoas, mas elas se parecem com árvores em movimento’. 25 Então Jesus colocou as mãos sobre os olhos do homem outra vez. Ele fixou os olhos, e sua visão foi restaurada, podendo enxergar tudo com nitidez. Jesus o mandou para casa com as seguintes palavras: ‘Não vá à cidade’. Marcos 8:22 a 26

Depois do episódio do “fermento”, todos chegaram à “Casa da Provisão” – Beit-Tzaidah – e logo que Jesus desembarcou, as pessoas lhe apresentaram um cego. Queriam que Jesus lhe tocasse para que ficasse curado. Mas ao contrário do desejo popular, Ele arrasta o cego pela mão, o leva para fora da cidade e cospe-lhe na cara. Ou como preferem alguns, nos olhos.

O relato é no mínimo interessante, pois o diálogo é singular e no mínimo estranho. Depois de cuspir na cara de um cego, aparentemente desconhecido, Jesus parece limpar a saliva com a mão e perguntar se ele, o cego, estava vendo algo. Para a surpresa de quem lê o texto, o enfermo visual “enxerga pouco”, “... homens parecendo árvores andando ...”. É estranho perceber que aquele cego sabia o que era uma árvore e o que era uma pessoa andando. Entendo que tudo indica, que ele, o cego, era um pilantra. Sua cegueira era moral, não física.

O termo hebraico usado para o momento que Jesus o “leva” para fora da cidade é “ferir”. Parece que ele foi arrastado com força por Jesus para fora do convívio das pessoas.

Depois de curar o “cego”, Jesus o manda pra casa, e diz para que ele não voltasse para a cidade. Esse fato reforça a ideia de que ele não era realmente cego, e que estava usando a credulidade e a misericórdia das pessoas que por ali passavam, para “ganhar dinheiro ilicitamente”, se fazendo de cego.

Cuspir na cara de alguém, em qualquer tempo, é ato de ofensa, e de desprezo pelo ato cometido pela pessoa que recebeu a cusparada. Acredito que distante de ser um ritual de cura, Jesus estava repreendendo o mentiroso que se fazia de cego. Porém, cheio de Graça e de Sabedoria, o Mestre Supremo, o Conselheiro Maravilhoso não expôs o enganador. Ele o curou de sua enfermidade moral, de sua cegueira moral, ele o fez ver a verdade. “Volte para sua casa, para sua família” disse Jesus.

Quantas vezes estamos diante da verdade, diante do que nos livra do mal, diante da bondade a ser feita, diante do respeito a ser exercido, diante do livramento a ser assumido, mas não enxergamos? Quantas vezes estamos cegos para a verdade, nos escondendo atrás de nossos desejos, de nossas manias, de nossos vícios, de nossas religiosidades, de nós mesmos. Quantas vezes estamos cegos para os caminhos alternativos que se apresentam diante dos nossos olhos, mas não conseguimos enxerga-los porque estamos com o olhar fixo em um determinado ponto, a ponto de nos cegarmos para tudo mais, que está ao nosso redor.

Não voltar para a “cidade”, é não voltar a praticar o que praticávamos antes de olhar e ver a verdade. Pessoas não são árvores, são pessoas. Árvores são árvores e pessoas são pessoas. Não tente enganar ninguém, dizendo pra si mesmo, ou pra seu Salvador que está vendo pessoas como se fossem árvores andando. Não seja tolo. Enxergue a verdade e volte para sua família.

Não pense que sou perfeito, que não tenho cometido pecados, que não tenho me cegado para as verdades bíblicas. Tenho feito isso, mas me sinto incomodado, me perturba a falta de dor que certos comportamentos me proporcionam. Peço todos os dias, muitas vezes em lágrimas, que o Eterno, o Deus de toda a terra, não me cegue, não me torne surdo, não me endureça o coração. Isso seria o meu fim, a maior de todas as tragédias familiares que eu poderia promover.

Nós, cegos morais, emocionais, e intelectuais, precisamos receber todos os dias, cusparadas em nossa cara, para sabermos que Jesus é o salvador, que Ele é quem nos garante uma vida eterna com o Pai Eterno.


Pense nisso. Enxergue. Volte pra casa, não para a cidade.

VEJAM, ESCUTEM E COMPREENDAM: LEVEM SEMPRE O MILAGRE NA VIAGEM.



“Os alunos – discípulos – esqueceram de trazer pães consigo, e no barco havia apenas um pão. Então Jesus lhes disse: ‘Cuidado! Evitem o hametz dos p'rushim – fariseus – e o hametz de Herodes’. Eles pensaram que Jesus lhes dissera isso por não terem pães. Sabendo, porém, o que pensavam, disse-Ihes: ‘Por que vocês estão falando entre si que não têm pães? Ainda não percebem nem compreendem? O coração de vocês está empedernido? Têm olhos, mas não vêem? Têm ouvidos, mas não ouvem? Vocês não se lembram? Quando reparti os cinco pães para os cinco mil, quantos cestos cheios de sobras vocês recolheram?’. ‘Doze’, eles responderam. ‘E quando reparti os sete pães para os quatro mil, vocês recolheram quantos cestos cheios de sobras?’. ‘Sete’, responderam. Jesus lhes disse: ‘E vocês ainda não compreendem?’. Marcos 8:14 a 21

“Hametz” não é fermento, é massa já fermentada, matéria já contaminada. É contra isso que Jesus fala com severidade aos seus alunos, novamente em um barco, viajando para o outro lado da existência. Aqueles homens estavam preocupados com o que iriam comer, já que, por desatenção, haviam esquecido os pães do milagre. Com sete cestos cheios de pães e peixes milagrosamente divididos, eles não levaram consigo “umzinho” sequer. Deixaram todo o milagre pra trás. No barco da vida, eles estavam conjecturando entre si, o que comeriam na “viagem”.

Se você parar para pensar no que esta sendo relatado no texto de Marcos, verá que é um contrassenso, comum a todos que põem em primeiro lugar as dificuldades e os desejos, esquecendo dos milagres. Fazer a viagem da vida sem tem na mente os milagres que nos levaram até o ponto em que estamos é perder – ou não ter – a confiança no Deus Eterno e em sua Providência Divina. Ficar preocupado com o que “comer” e o que “vestir” é perder de vista que valemos mais que passarinhos e flores. Manter viva a lembrança dos milagres, na mente e no coração, é tarefa diária.

Quando Jesus repreende seus alunos para não “comerem” do “pão contaminado”, pela massa já fermentada, pelos fariseus, ele estava dizendo que não devemos cair na tentação de “pedir um sinal” para sabermos que somos mais importantes que passarinhos e flores. Ele estava dizendo que não podemos lançar mão da religiosidade insana, não aceitando o estado em que estamos, nem propagarmos em “microfones”, que “não aceitamos esse estado, ó senhor....”. Isso é uma grande tolice e mostra o quanto não conhecemos a Verdade Celestial. Não comer “pão contaminado” pela religião – fariseus – é dizer a todos que o pão que nos alimenta é fruto de milagre.

Quanto ao “pão contaminado” pelo “fermento de Herodes”, tem haver com a segurança que o prazer físico nos proporciona. Se lembrarmos do episódio, em que Herodes é mencionado, no livro de Marcos, veremos que ele, usou do seu poder para presentear a filha de sua amante com a vida de um profeta. Ele, Herodes, desejou possuir sexualmente a jovem Herodias, sua sobrinha, e todo desejo sexual não satisfeito, cega e mata. Foi o que aconteceu. Herodes, contaminado por um desejo sexual incontrolável, e cheio de poder, mandou matar para satisfazer tais desejos.

Jesus alerta a todos que querem lhe seguir que devemos carregar o que nos mata, seja religião, sexo ou poder. Naquele momento o Mestre disse que seus discípulos não poderiam, de maneira nenhuma, “comer” do “pão contaminado” com o poder e com o sexo descontrolado. Simples assim.

Nenhum Filho de Deus pode ser controlado pelo sentimento de poder, nem pelo desejo sexual desenfreado, muito menos por uma religiosidade sem a Verdade. Na caminhada da existência temos de carregar, principalmente os milagres eu nos alimentam. Os problemas, já estão conosco.

Termino esse artigo com um texto do rabino Bonder:

‘Certa vez um homem procurou o Rabino Itschak laakov de Lublin, o vidente de Lublin, suplicando que o ajudasse a se ver livre de pensamentos estranhos que, como intrusos, atrapalhavam sua meditação e oração. Não importa o quanto tentasse ter apenas pensamentos puros e sagrados, era invadido por pensamentos de inveja, ganância, fome e sexo que o distraíam.

‘Sábio, de onde esses pensamentos surgem? Quem os está colocando em minha mente? Que força perversa está tentando atrapalhar minhas orações e enganar meu coração?’

O sábio tomou o homem pelos ombros e ordenou que se tranquilizasse.

‘Não acredito que estes sejam ‘pensamentos estranhos’. Talvez existam algumas poucas almas sagradas para quem pensamentos como os seus sejam estranhos. Mas seus pensamentos nada mais são do que seus pensamentos; nada diferente dos meus e em nada especiais. A quem você deseja atribuir esses pensamentos?’

O Rabino Rami Shapiro faz uma magistral interpretação dessa história:

Imaginamos que exista algo sagrado que seja diferente das coisas ordinárias, mundanas. Fantasiamos que exista uma outra maneira de pensar diferente da que praticamos a todo o momento e que nos eleva para além de nossa vida ordinária. Mas isso não existe; apenas pensamentos mundanos que vão e vêm, surgem e desaparecem a cada momento.

O sagrado não tem a ver com a eliminação de pensamentos e, sim, com a clarificação de visões. Certamente, não tem a ver com a busca de um culpado externo que possamos acusar por nossos pensamentos. Infelizmente, muitas formas religiosas em nosso tempo buscam ‘demônios’ e forças externas para culpá-los por nossos ‘pensamentos estranhos’. Isso não é ir ao encontro do sagrado, muito pelo contrário, é seu oposto. A busca do sagrado se encontra em assumirmos a responsabilidade por quem somos, por nossos atos e nossos pensamentos.

É comum acreditarmos que, se pudermos ‘exorcizar’ certos pensamentos, seremos imediatamente preenchidos pelo sagrado e pela graça divina. Muitas vezes nos comportamos como esse homem da história, que culpa os nossos desejos pelos nossos sofrimentos e fracassos. Mas isso não é real. O desejo é apenas um sentimento como outros que acreditamos ‘puros’, como o amor e a compaixão. O desejo é um sentimento e, como tal, não pode ser controlado. Os sentimentos não podem ser eliminados e muito menos percebidos como ‘estranhos’. É claro que não precisamos fazer dos sentimentos os únicos determinantes de nosso comportamento. Devemos buscar fazer de nossos “valores” os determinantes de nosso comportamento.

O que vemos na história é que o sábio alerta para o fato de que não são os sentimentos que controlamos, mas nossa conduta. Não existe nenhuma forma de pensamento que seja ‘estranha’. Se ele foi pensado, ele é seu. Algo promoveu este pensamento e assumi-lo é sinal de maturidade. Ele revela algo, mas não necessariamente dita o que devemos fazer. Entre o pensamento e a ação, há a decisão, o livre-arbítrio.”

Fronteiras da Inteligência,
Senso de autovalor - Somos melhores e piores do que nos imaginamos.

Pense, medite. Veja, ouça e compreenda. Leve sempre na viagem da existência, os milagres.


Deus abençoe.

domingo, 4 de maio de 2014

NEM SINAL.

“Os p'rushim – fariseus – vieram e começaram a discutir com ele. Queriam que lhes desse um sinal do céu, por desejarem pô-lo à prova. Suspirando profundamente, Yeshua – Jesus – respondeu: ‘Por que esta geração deseja um sinal? Sim! Eu lhes digo, nenhum sinal lhe será dado!’. Logo após, ele os deixou, entrou novamente no barco e partiu para a outra margem do lago.” – Marcos 8:11 a 13.

No episódio imediatamente anterior, Jesus havia dividido poucos pães com uma multidão de mais de quatro mil pessoas. Ao contrário da “outra multiplicação de pães”, nessa, Ele havia provocado o milagre da divisão por entender que não havia realmente comida. Maior sinal que esse? Não era preciso.

Mas a religião e os religiosos não catalogaram e classificaram o que é e o que não é milagre. Para todos os meramente religiosos, alimentar famintos, dividir o pão com quem tem fome não é milagre. Nunca foi e nunca será. Para a religião o milagre seria se os próprios anjos de Deus viessem com cestos de ouro ornados com pedras preciosas e entupidos de maná celeste e servissem somente aos aptos para receber o milagre. Religioso pede sinal porque não enxerga o milagre que está na sua cara, na sua frente, diante de seus olhos. Mas ele, o religioso, não enxerga. Não enxerga porque não vê. Tem o coração endurecido pelo cimento da religião, está empedernido, petrificado.

A religião nos ensina que precisamos por o Eterno à prova, a religião ensina que precisamos duvidar de tudo e de todos; a religião nos ensina que as ações do Espírito Santo devem ser precedidas de algum “toque especial”. Tudo mentira.

A religião provoca em seus seguidores o fanatismo. Rabi Bonder diz que:

O fanatismo e o consumismo são lados de uma mesma moeda (...). A fonte do desejo de poder é o controle. Precisamos de controle para deter a morte. Este é o sonho messiânico de tantas correntes que expressam ignorância espiritual. A espera de que a realidade se resuma um dia às certezas é o desejo mais cruel com que convivemos. (...) O fanatismo e o consumo querem ‘colocar para dentro’ o que é externo, o primeiro pela certeza e o segundo pela posse. (...) O fanatismo privilegia a resposta, até porque se esqueceu da pergunta ou porque deliberadamente quer se ver livre da pergunta. O fanatismo quer por outra via da certeza fazer o que a ciência acalenta como agenda oculta: o controle.” 1

Foi por isso que aqueles religiosos conhecidos por nós como Fariseus pediam um sinal. Eles queriam controlar o milagre. Eles queriam controlar o “fazedor de milagres”.

Nós também agimos assim quando nos prendemos na religião para credenciar nossos milagres. Também queremos que nossas crenças nos conceitos religiosos credenciem os milagres que buscamos receber. Nossa falta de visão espiritual nos impede de enxergar o que está diante dos nossos olhos.

Quantas vezes uma enfermidade é o milagre? Quantas vezes a dor é o milagre? Quantas vezes a ausência é o milagre? Quantas vezes a perda é o milagre? Mas nosso olhar religioso não nos permite ver o MILAGRE quando ele está diante de nós, queremos um sinal, uma mostra de que aquele milagre é certamente um milagre.

Os sinais que se procuram não veem do Céu, nem de Deus, eles são provenientes da intelectualidade, da reles intelectualidade – seja ela em qualquer nível – humana. Queremos entender os mecanismos do milagre e o sinal, é esse mecanismo, que transforma o Divino em humano, o Incontrolável e controlado. O sinal que se procura pode estar na forma de um diploma, de carteira, de um título, de poder, do dinheiro, dos elogios (...).

A NECESSIDADE DE UM SINAL É PRODUTO DA FALTA DE CONFIANÇA EM DEUS. É PRODUTO DO TOTAL DESCONHECIMENTO DE QUEM É O CRIADOR DE TUDO.

Termino este texto reproduzindo trechos do Rebe Bonder:

“Em vez de um processo de vida que oferte gradativamente medos, desconfianças e confusões em altares, seus conceitos se baseiam em banir, suprimir ou exorcizar. O extremo oposto da espiritualidade não é o materialismo ou a ciência, mas o fanatismo. Como o Haf etz Chaim afirmou: ‘Com fé, não há perguntas; sem fé não há respostas.’ Há um paradoxo que, existindo sob tensão, é talvez o mais importante instrumento para lermos a realidade. A perda dessa tensão, no entanto, produz as respostas sem perguntas que a fé do fanático institui, ou as perguntas sem respostas que a ausência de fé da ciência institui. As dúvidas aplicadas às dúvidas geram verdades que são imprescindíveis às respostas, mas produzem também o efeito maligno das certezas.

As certezas, ao contrário das verdades, são um truque. E, como todo truque, não funciona na realidade, apenas aparenta funcionar. Seu funcionamento é simples, como já identificamos. Absorvem-se as respostas e descartam-se as perguntas, destruindo-se as evidências que poderiam questionar essas respostas no futuro. (...).

A resposta sem sua pergunta é fechada e intolerante; é a concretização de uma vontade.

A intolerância é a reação do amedrontado, do desconfiado e do confuso, cuja função maior é ocultar perguntas e essências.

Certa vez, um homem procurou o Rabino de Kotzk e disse-lhe que estava com problemas:
‘As pessoas me chamam de fanático. Por que me atribuem essa enfermidade? Por que não me reconhecem como uma pessoa piedosa?’O rabino respondeu: ‘Um fanático converte questões essenciais em questões marginais e questões marginais em questões essenciais’. (...).” 2

A resposta de Jesus aos fanáticos que pedem um sinal para poder acreditar na verdade foi, é e sempre será, simples direta e objetiva:

“nenhum sinal lhes será dado!”.

Pense nisso.

“O fanatismo consiste no ato de redobrar esforços por conta de se ter esquecido dos objetivos.” 3

_________
1. Fronteiras da Inteligência, Senso de tolerância. pgs. 116 e 117.
2. Fronteiras da Inteligência, Senso de tolerância. pgs. 117 e 118.

3. George Santayana.

DIVIDINDO O MILAGRE

Terminada a primeira parte do processo de finalização do livro “Minha verdade sobre o dízimo”, estou retomando aos artigos dos estudos do livro de Marcos. Vamos ao texto.

“Durante aqueles dias, outra grande multidão se reuniu, e as pessoas não tinham nada para comer. Yeshua – Jesus – reuniu os alunos – discípulos – e lhes disse: ‘Sinto pena dessas pessoas porque elas têm estado comigo há três dias, e agora não possuem nada para comer. Se eu as mandar de volta para casa com fome, cairão durante o trajeto de volta; algumas delas percorreram uma longa distância’. Os alunos – discípulos – lhe disseram: ‘Como é possível encontrar pães suficientes para saciar a fome das pessoas em um lugar afastado como este?’. ‘Quantos pães vocês têm?’, ele perguntou. A resposta foi: ‘Sete’. Yeshua – Jesus –, então, disse à multidão que se assentasse, pegou os sete pães, disse uma b'rakhah a, partiu-os e os deu aos alunos – discípulos – para servir ao povo. Também possuíam alguns peixes; dizendo outra b'rakhah b por estes, também ordenou que fossem servidos. As pessoas comeram até ficar satisfeitas; os alunos – discípulos – recolheram as sobras — sete cestos cheios. Cerca de quatro mil pessoas estiveram ali. Depois de despedi-las, Yeshua – Jesus – entrou no barco com os alunos – discípulos – e partiu para o distrito de Dammesek – Damasco.” Marcos 8:1 a 10.

Ao contrário da primeira “multiplicação” de pães e peixes, onde Jesus estimulou a divisão dos alimentos, neste episódio, é o Mestre quem identifica que as pessoas “... não possuem nada para comer...”. Reconhecer a diferença entre os dois milagres pode trazer a todos que identificam essa diferença, um conhecimento melhor quanto ao que Jesus está ensinando.

Diferente, porém igual em sua essência, este segundo momento de divisão de alimentos, conta com um tempero especial. O MILAGRE DIVINO!

Esse tempero milagroso é a diferença entre “um” e “outro” milagre de divisão. No primeiro, o milagre foi humano; todos agiram em misericórdia com o outro e dividiram com todos o que tinham. No segundo, existe a ação direta do Santo em consubstanciar fome em comida.

Porém, a didática é a mesma: DIVIDIR COM O PRÓXIMO O QUE SE TEM.

Se temos comida proveniente dos nossos esforços, fruto do nosso trabalho, temos de dividir com quem não tem – ou não quer ter – condições de trabalhar para obter essa comida. Por sua vez, quem recebe de nós esse alimento humano, deve também repartir com outro, o que recebeu de nós. Mas se nosso alimento é proveniente do Santo que nos envia Seu maná, transformando nossa fome em alimento, enchendo miraculosamente nossa despensa com mantimento, também devemos dividir esse milagre com quem não acredita nele. O Milagre só se efetiva em nossa vida quando é dividido, compartilhado, repartido.

Não importa se o milagre é humano ou divino, ele só se materializa em nossa vida como fruto modificador que nos adoça a boca, quando é dividido com quem tem fome. Simples assim.

***
O termo hebraico b'rakhah, que tem sua raiz no termo berekh refere-se ao ato de abençoar com os joelhos, ou “de joelhos”. Mas distante de ser um ritual ridiculamente imaginado como pondo os alimentos debaixo dos joelhos ou na altura dos joelhos, a “benção de joelhos”, está na ORDEM DAS COISAS.

Quando oramos em qualquer posição que não a de “joelhos com o rosto em terra”, nosso intelecto está acima do coração. A leitura para o penitente é: “minha razão primeiro, meu sentimento depois”. Quando nos ajoelhamos, essa ordem se modifica e a leitura passa a ser: “meu coração primeiro, minha razão depois”. É nesta inversão de valores que está a origem do milagre. No texto encontramos “...Sinto pena dessas pessoas...”. Para abençoar precisamos equilibrar e igualar nossas três dimensões humanas, a intelectual, a emocional e a física.

Ao se emocionar com a situação dos famintos, Jesus colocou o coração na mesma altura da cabeça. Ao recitar a bênção sobre os alimentos, ele trouxe a cabeça para o nível do coração. Ao dividir o que possuía ele manifestou fisicamente o milagre.

Pense nisso.
Deus lhe abençoe.

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a, b. b'rakhah – Bênção. A palavra tem origem em berekh (joelho) e apresenta a ligação entre a adoração e o ato de ajoelhar-se. Dizer uma b'rakhah significa abençoar. (Glossário da Bíblia Judaica, editora Vida, 2009).

segunda-feira, 21 de abril de 2014

OUVIDO PRENHE DE SALVAÇÃO, LÍNGUA LIVRE PRA SALVAR.



Esse espaço tem sido nosso meio de encontro. Você no seu lugar e eu no meu.

As semanas anteriores foram muito proveitosas e singulares. Com a graça de Deus, terminei o livro Minha verdade sobre o dízimo”. Agora e seguir a programação de fazer a paginação, diagramação e impressão. Nesse primeiro momento de forma artesanal, pois os recursos para bancar uma impressão gráfica industrial, inexistem. Mas tudo corre dentro do caminho traçado pelo Senhor de toda a terra. Quando tudo estiver pronto, anunciarei a data de lançamento.

O artigo sobre a “Mãe impura, filha possessa”, foi postado com muita dificuldade, devido ao péssimo serviço de internet aqui na Região Norte do País, principalmente na cidade de Itacoatiara. Mas, hoje quero tratar de um assunto não menos interessante que os anteriores, e que carrega a mesma carga de pessoalidade. Vamos ao texto:

“Depois disso, ele deixou o distrito de Tzor (Tiro) e, atravessando Tzidon (Sidon) e o lago Kinneret (Genezaré), chegou à região das Dez Cidades. Trouxeram-lhe um homem surdo e que não conseguia falar, e pediram a Jesus que lhe impusesse as mãos. Levando-o consigo para longe da multidão, Jesus pôs os dedos nos ouvidos do homem, cuspiu e tocou em sua língua; então, olhando em direção ao céu, suspirou fortemente e lhe disse: ‘Hippatach!’ (isto é, ‘abra-se’). Os ouvidos do homem foram abertos, sua língua se moveu livremente, e ele começou a falar com clareza. Jesus ordenou às pessoas que não dissessem nada a ninguém; quanto mais ele insistia, mais zelosamente elas espalhavam as notícias. As pessoas foram tomadas de espanto e diziam: ‘Tudo o que ele executa, faz muito bem’. ‘Faz até mesmo o surdo ouvir e o mudo falar!’. Marcos 7:31 a 37

Resolvida, a questão da impureza da grega, siro-fenícia e de sua filha, Jesus retorna ao outro lado do lago de Genezaré, desta vez para encontrar os frutos do trabalho de “Legião”. Como já estudamos anteriormente, o homem possesso pela loucura das múltiplas vozes, doutrinas e costumes, foi liberto por Jesus de seus demônios e ordenado pelo Mestre a voltar para casa, enfrentar quem o demonizava. Ele fez o que Jesus ordenara e ainda passou a espalhar as boas notícias de salvação pelas Dez Cidades – Decápolis. É para esse lugar que Jesus vai com seus alunos.

Ao chegar, trazem-lhe um homem surdo-mudo. O interessante, é que no texto não é atribuída ao homem surdo, nenhuma mazela espiritual, ele não está possuído por nenhum espírito impuro. É somente um doente comum, um surdo com dificuldades de falar. O desejo das pessoas era assistir um ritual religioso de cura, notem que no texto se destaca: “...e pediram a Jesus que lhe impusesse as mãos...”. Todos queriam ver o milagre, não como um Milagre, mas sim, como técnica humana para “realizar” milagres.

Percebendo isso, Jesus leva o surdo para longe dos olhares de todos e realiza um ritual ímpar. Estranho e extravagante. Um choque para todos que leem com a atenção devida.

A imaginação coletiva é que Jesus teria posto seus dedos – temporariamente – em cada um dos ouvidos, cuspido e com o dedo tocado a língua do enfermo. Mas não creio que tenha sido assim, acho que foi algo mais escandaloso. Porquê então, teria sido necessário retirar o enfermo do meio do povo?

Seja como for, a questão é que Jesus provoca naquele homem um verdadeiro choque emocional. Ao “tapar” seus ouvidos com os dedos, Jesus deu ao surdo a sensação física da surdez, já que a emocional ele já possuía. Ele não ouvia e sabia disso, ele tinha toda a sensação do que era ser surdo. Mas não possuía uma sensação física que o impedisse de ouvir. No momento em que Jesus “tapou-lhe” os ouvidos, as sensações se unirão e a surdez parecia ser completa.

No momento seguinte, Jesus “cuspiu e tocou em sua língua”. Tocar na língua com o que? COM A LÍNGUA! Língua tocando em língua. Uma língua Santa, desprovida de preconceitos, objetivada em somente anunciar as Boas Notícias do Reino do Céu e uma língua enferma, travada, calada, in-falante, impedida de falar pelo que não podia ouvir.

Falar é resultado do esforço emocional do intelecto. Esse esforço conjunto produz a fala, que é a ação – física – de falar. Em minha opinião, o que Jesus fez foi provocar naquele homem um choque emocional-intelectual, quando lhe invadiu a boca com Sua língua sagrada.

ABRE-TE!

Não há como não abrir a boca e destampar os ouvidos diante da ordem do Messias, que nos escolhe para ouvi-Lo e falar n’Ele, por onde quer que andemos. Não existe nenhuma possibilidade de impedir que essa língua que nos contamina com santidade invada nossa boca e nos abençoe com esse toque mágico e inimaginável.

Não podemos sair por ai falando “de” Jesus, temos de falar “em” Jesus. Devemos estar Nele, fomos possuídos por Ele com seu beijo santo, seus dedos em nossos ouvidos nos fazem entender que só podemos dar os ouvidos para Ele. Nossos ouvidos só podem ser “emprenhados” pelo que for Sagrado, pelo que vem do Santo, por meio de Jesus, o Messias. O Salvador.

Com os ouvidos prenhes de salvação, precisamos fecundar, semear, emprenhar outros ouvidos com a mesma mensagem salvadora, agora com nossa língua santa. Língua que foi santificada pelo toque sobrenatural da língua de Jesus.


Reflita. Deus lhe abençoe.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

MÃE IMPURA, FILHA POSSESSA.

Oxana Malaya foi encontrada na Ucrânia em 1991.


Continuando o estudo no livro de Marcos ...

“A seguir, Jesus saiu daquele distrito e se dirigiu à circunvizinhança de Tzor (Tiro) e Tzidon (Sidon). Lá ele encontrou uma casa para ficar e desejava permanecer no anonimato, mas isso foi impossível. Aproximou-se dele uma mulher cuja filhinha tinha um espírito impuro, e ela se prostrou a seus pés. A mulher era grega, siro-fenícia de nascimento, e lhe implorou que expulsasse o demônio de sua filha. Jesus disse: ‘Em primeiro lugar, alimentam-se os filhos; não é certo tirar a comida das crianças e lançá-la aos cachorrinhos de estimação’. Ela respondeu: ‘Isso é verdade, senhor; contudo, mesmo os cachorrinhos debaixo da mesa comem as sobras das crianças’. Então Jesus lhe disse: ‘Por causa dessa resposta, você pode ir para casa; o demônio já deixou sua filha’. Ela voltou para casa e encontrou a filha deitada na cama, livre do demônio.” Marcos 7:24 a 30

Depois de ter mostrado de forma prática e insofismável aos alunos, aos religiosos e ao povo que o que nos torna pessoas impuras é o que falamos, e que nossas palavras são nascidas envoltas pelos sentimentos do coração, Jesus tentou descansar em lugar distante da multidão. Porém, uma mulher que possivelmente o seguia e havia entendido o que ele dissera sobre comida e palavras, disse-lhe em tom de questão, que sua filha estava com um espírito impuro. Notem que o ensino de Jesus estava em sentido contrário ao questionamento daquela mãe. Jesus afirmara que o que nos torna impuros é o que falamos, mas também o que ouvimos.

Se ouvirmos palavras provenientes de um coração impuro, podemos também nos tornar impuros, se essas palavras forem se acomodando em nossas emoções – no coração. Falar e ouvir estão intimamente ligados no ensino de Jesus. Aquela mãe, que no texto original em hebraico é identificada como uma mulher envergonhada pelo que havia ouvido de Jesus apresentou ao mestre uma questão, que ela já havia resolvido em seu coração. Sua filha estava impura, por qual motivo?

O texto de Marcos mostra uma estranha identificação da mulher. Ela não tem nome, mas tem endereço, ela é grega, porém siro-fenícia de nascimento. Ou seja, há importância nessa revelação da identidade da mulher. E isso tem haver com a resposta aparentemente estapafúrdia que Jesus deu a ela. Ele sabia com quem estava falando e ela sabia o que ele estava dizendo. A conversa entre eles está em um nível fora do alcance do simples leitor. Em sendo uma mulher de cultura grega, ela deveria ser idólatra, deveria servir a algum deus; sendo siro-fenícia pode ter sido educada a cultivar deuses domésticos, entidades que são cultuadas em altares dentro das casas ou em uma dependência dela.

Ao me deparar com essa possibilidade pesquisei sobre o tema e encontrei um dado interessante. Havia na cultura grega, uma deusa familiar, que era venerada com muita devoção por todos os gregos prosélitos. Na mitologia grega, Héstia era essa deusa familiar que protegia as famílias. Sua história mitológica é interessante. Ela era irmã de Zeus, que a proibira de casar, mas permitiu que ela fosse adorada como deusa familiar, uma espécie de deusa menor. Tal fato é interessante e pouco se encontra sobre tal divindade nos dicionários de mitologia grega. O sincretismo grego-siro-fenício, deu a essa deusa uma característica interessante. Seu culto era realizado, oferecendo o melhor dos alimentos, principalmente leite, bolos e biscoitos para ela, na figura de animais de estimação, principalmente cachorrinhos.

Não é difícil imaginar que aquela mulher, cheia de impureza, deve ter falado muitas coisas desagradáveis para a filha, que por ser uma criança, deve ter crido nas besteiras faladas pela mãe e se “transformado” em uma cachorrinha, comendo a comida dos cachorrinhos de estimação, que era depositada religiosamente por ela. Isso não é difícil de crer, tendo em vista os diversos casos – mostrados em documentários – de crianças que viveram com animais, e debilitadas mentalmente acreditavam ser da família desses animais. O caso mais famoso é de uma menina ucraniana que fora criada pelos cachorros da família, pois seus pais a alimentavam junto com eles; segundo o documentário, ela se “transformou” em um cachorro. Outro caso famoso é o de um garoto africano criado com galinhas, na medida em que cresceu acreditou que era uma galinha. Tudo por causa do espírito impuro que saiu da boca dos pais.

Tudo indica que o caso daquela mulher siro-fenícia, poderia ser um desses. Ela acreditara – por ser idólatra – que sua filha estava com um demônio, ou um “espírito de cachorro”. Isso não consta no texto, mas é identificado por Jesus logo de primeira. A resposta do mestre mostra essa identificação: ‘Em primeiro lugar, alimentam-se os filhos; não é certo tirar a comida das crianças e lançá-la aos cachorrinhos de estimação’, disse ele. A mãe já sabia que era dela, a culpa pelo estado “demoníaco” da filha. Quando Jesus identificou a questão, ela imediatamente retomou o controle de sua vida, afirmando que a deusa Héstia nãos seria mais importante que seus filhos: ‘Isso é verdade, senhor; contudo, mesmo os cachorrinhos debaixo da mesa comem as sobras das crianças’. Tudo resolvido. A mãe sabia que se ela tratasse os filhos como filhos e os animais como animais tudo se reequilibraria.

Mas a menina pensava ser um cachorro. Ela comia com eles e dormia com eles. O milagre da transformação da cachorrinha em gente dependia de Jesus. Milagres só dependem dele.

Porém a transformação de animal em filha já havia acontecido no coração daquela mãe. Filhos comem à mesa, animais comem das sobras que os filhos eventualmente deixam cair. Isso ela disse ao Senhor e ele apaixonou-se pela confiança da mulher: ‘Por causa dessa resposta, você pode ir para casa; o demônio já deixou sua filha’. Não havia o que duvidar, a confiança daquela mãe contagiara ao mestre Jesus, aquela aluna havia aprendido tudo direitinho. Sem titubear ela voltou pra casa “...e encontrou a filha deitada na cama, livre do demônio” cachorro. A prova disso é que ela estava deitada na cama, feita gente e não entre os animais feita bicho.

O que podemos aprender com essa lição um tanto estranha? Creio que essas histórias nos alerta para a importância que há naquilo que falamos para os nossos filhos. Muitos chamam seus filhos de “tudo que não presta”, e quando eles se transformam no que lhes foi profetizado, culpam o demônio pelo estado animal dos filhos. Porém esquecem que eles mesmos fizeram dos filhos os “demônios” que são hoje. Esses pais de espíritos impuros, vomitam sua impureza em forma de palavras como se fossem alimento, aos filhos, que por não terem outra referência de vida se transformam nos animais preditos por seus pais.


Pense nisso. Como você alimenta as emoções dos seus, sejam eles quem forem.

domingo, 30 de março de 2014

VOCÊ É O QUE VOCÊ FALA, E NÃO O QUE VOCÊ FAZ.


Continuando o estudo do livro de Marcos. No episódio relatado no texto em questão, encontramos Jesus sendo confrontado com uma prática ritual religiosa, possivelmente, criada pelo clero judaico. Tal prática, “o ritual de lavar as mãos”, ainda é praticado.

Mas o confronto não se deu por esse motivo. As questões eram mais viscerais, eram profundas e intestinais. A revolta daqueles líderes religiosos que se diziam detentores dos segredos da sacralidade, exalava por seus poros. A superioridade intelectual de Jesus os deixava irritados e como – aparentemente – não possuíam competência para confrontá-lo nesse campo, a força era sua única “arma”. Diz o texto de Marcos, no capítulo sete, dos versos um a vinte e três.

Os fariseus – comentaristas – e alguns escribas – escritores – da Torah provenientes de Jerusalém se reuniram com Jesus e viram que alguns de seus alunos – discípulos – comiam tendo as mãos ritualmente impuras, isto é, sem realizar o ritual de lavagem das mãos. (Porque os fariseus – comentaristas –, de fato, todos os habitantes de Judá mantinham a tradição dos anciãos: não comer, a menos que tivessem realizado a lavagem ritual das mãos. Também ao virem do mercado não comiam até terem lavado as mãos à altura do pulso; e eles mantêm muitas outras tradições, como a lavagem de copos, potes e recipientes de bronze.)

Os fariseus – comentaristas – e escribas – escritores – da Torah lhe perguntaram:

“Por que seus alunos – discípulos – não vivem de acordo com a tradição dos anciãos, mas, em vez disso, comem com as mãos ritualmente impuras?”.

Jesus lhes respondeu:

“Isaías – yesha-yahu – [o anunciante da] salvação de Deus – estava certo ao profetizar a respeito de vocês, hipócritas, como está escrito:”

'Estas pessoas me honram com os lábios, mas o coração está muito longe de mim. Sua tentativa de me adorar é inútil, porque ensinam regras inventadas por homens como se fossem doutrinas’.

“Na verdade, vocês se afastam do mandamento divino e se apegam à tradição humana”.

Jesus continuou a dizer-lhes:

“Vocês, se tornaram especialistas em fugir do mandamento de Deus, a fim de manterem suas tradições! Moisés disse:”

‘Honre seu pai e sua mãe' e,
'todo o que amaldiçoar seu pai ou sua mãe deverá ser executado'.

Entretanto, vocês dizem que se alguém disser ao pai ou à mãe:

‘Prometi como korban (isto é, uma oferta para Deus) o que poderia ter usado para lhe ajudar’,

essa pessoa fica desobrigada de realizar qualquer coisa em prol do pai ou da mãe. Portanto, mediante a tradição perpetuada por vocês, anula-se a Palavra de Deus! E vocês ainda fazem outras coisas semelhantes.”

Então Jesus chamou novamente as pessoas e lhes disse:

“Prestem atenção, todos vocês, e entendam isto! Não existe nada no exterior de uma pessoa que, entrando nela, a torna impura. Ao contrário, as coisas que procedem da pessoa é que a tornam impura!”

Ao deixar as pessoas e entrar na casa, os alunos – discípulos – lhe fizeram perguntas acerca da parábola (mashal). Ele respondeu:

“Então vocês também não entendem? Não percebem que nada que entra na pessoa pode torná-la impura? Porque isso não atinge o coração, apenas o estômago, e de lá vai para a latrina”.

(Dessa forma, ele declarou todos os alimentos ritualmente puros.)
“O que sai da pessoa",

ele continuou,

“é o que a torna impura. Porque de dentro do coração da pessoa, procedem: maus pensamentos, imoralidade sexual, roubo, assassinato, adultério, cobiça, rancor, engano, indecência, inveja, calúnia, arrogância e insensatez. Todas essas coisas perversas procedem de dentro da pessoa e a tornam impura.”
Marcos: 7:1 a 23

Depois, de ter feito tudo que fez, Jesus agora era confrontado por um grupo de estudiosos das leis religiosas; talvez, equivalentes aos teólogos e doutores em teologia dos nossos dias. Com eles, estavam seus amanuenses, os escritores dos textos sagrados. Essas duas classes de líderes religiosos dominavam os dias de Jesus. Suas interpretações dos textos bíblicos e seus comentários sobre os mesmos, em alguns casos, perduram até hoje. Mas, o fato de serem intérpretes, comentaristas e escritores da lei religiosa não os fazia melhores que Jesus. Pelo contrário, a inteligência de Jesus era superior à deles e isso os deixava desconcertados e enraivecidos.

Nesse confronto com o mestre, eles o questionaram sobre o ritual de lavagem cerimonial das mãos. A questão levantada pelos religiosos não se focava na não observância dele, por parte dos discípulos, seu foco era a resposta. Como aquele mestre libertário iria responder aos questionamentos teológicos daqueles doutores da lei religiosa? Ao lermos o texto com atenção, perceberemos que a pergunta não se dirigia ao que Jesus fazia, mas sim ao que “alguns dos seus alunos” faziam. Não eram todos, eram “alguns”. Esses – alguns – não haviam lavado suas mãos ritualisticamente, por isso seu mestre estava sendo questionado. Mas o texto não diz que Jesus havia realizado o ritual de lavagem das mãos. Parece que a intenção dos religiosos era desqualificar o ensino de Jesus por causa do comportamento impróprio, de alguns de seus alunos. É sempre assim que a religião faz, tenta nos desqualificar por nossas atitudes, ou pela atitude de alguém que está conosco.

Imagino que muitas vezes o ministério de meus pais foi questionado, foi posto em dúvida, devido ao comportamento dos filhos. Acredito que nossos pais sofreram muitos ataques por causa das nossas escolhas. Todos nós, filhos de Geraldo e Ruth Rocha, continuamos sendo quem somos – ou quem pensamos ser. Quando saio acompanhando papai Geraldo em suas compras, ele do seu jeitinho tradicional, com seu bigodão branco, e eu, um tanto extravagante com minha barba grisalha e cabelos grandes e desalinhados, não nos constrangemos pelo que somos. Nem ele, nem eu. E ele é assim com todos os outros filhos. Hoje me vejo em situação igual à de meu velho e amado pai, meus filhos, têm seus caminhos, fazem suas escolhas e nem por isso o que ensino aos meus alunos – que não são meus filhos – é menos verdade ou menos importante, do que eu ensino e ensinarei aos meus filhos – enquanto viver e for necessário ensiná-los. Não importa como nos vestimos, nem o que fazemos, somos todos filhos de Geraldo e Ruth Rocha, assim como meus filhos são meus filhos e filhos de suas mães. Temos orgulho de ser filhos de quem somos e ser pais de quem somos.

Como um pai zeloso, Jesus partiu em defesa de seus alunos, contra a falta de respeito dos religiosos. A pouca inteligência da religião constrói casas sobre a areia, perto da água, no meio do caminho da chuva. O dito dos religiosos os destruiu. Aquela cultura era a prática dos anciãos, dos velhos, dos pais. Ao usarem essa justificativa para dar força ao argumento de que os alunos de Jesus estavam desrespeitando a memória dos pais, Jesus contra-atacou usando a mesma figura de linguagem. O ensino dos pais era cuidar da família, mas aqueles religiosos estavam ensinando que DAR DINHEIRO PARA A RELIGIÃO era mais importante que cuidar da família. A palavra de Deus, proveniente da boca dos pais da nação judaica, estava sendo torcida pelos líderes religiosos que entendiam-se detentores das verdades divinas. Mas a verdade era outra. Jesus os confronta consigo mesmos. Ele os divide em duas partes, e as põe uma contra a outra.
A questão proposta foi:

Se fazer – cuidar da família – o que a lei dos pais dizia era o correto, porque eles faziam o contrário – não cuidavam dos pais – dizendo ser o correto?

Entenderam?

O que Jesus perguntou foi o seguinte: SE O “FAZER” COM BASE NO DITO DOS PAIS ERA O CORRETO, PORQUE ENTÃO, ELES DIZIAM QUE ERA POSSIVEL FAZER O CONTRÁRIO?
A resposta pode estar na forma correta de entender o mandamento: “Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.” Êxodo 20:7. Tomar o nome de Deus em vão, é transformar em Divino – Deus –, tudo aquilo que é humano; e transformar em humano, tudo aquilo que é Divino – Deus.

Aqueles religiosos estavam cometendo antes de tudo, o pecado de tomar o nome de Deus em vão, transformando as palavras deles em palavras e atos Divinos. Fica claro no texto, que a palavra de Deus é CUIDAR DA FAMÍLIA e não dar dinheiro para deus.

Após esse desmascaramento da religião humana, animal e diabólica, Jesus alertou aos seus alunos que “... não existe nada no exterior de uma pessoa que, entrando nela, a torna impura. Ao contrário, as coisas que procedem da pessoa é que a tornam impura!”. Jesus afirmou categoricamente que tudo que nos serve de alimento é puro, pois passará pelo fogo da digestão, pelo vale da decomposição para virar emoção, inteligência e ação. Isso é espiritualidade.

Finda a discussão. Não havia competência na religião para confrontar Jesus.

Dentro de casa, em particular, os alunos perguntaram ao mestre a explicação da mashal. O termo foi traduzido, pelos atuais religiosos, como se fosse “parábola”, mas não é. Parábola, segundo James Strong é chuwd, propor um enigma, ou chiydah, que é propriamente parábola ou enigma. No texto de Marcos, o termo hebraico usado é mashal, que tem o sentido de “sentença proferida por alguém de inteligência superior”. E foi exatamente isso que aconteceu, a inteligência de Jesus era proporcional a sua espiritualidade, da mesma forma que suas emoções também eram superiores, bem como suas ações. A inteligência de Jesus vinha do alto, sua mente estava presa no reino de Deus. Suas emoções plantadas na terra, no cuidado com a família, com os necessitados. Suas ações eram intermediárias, mistas, confusas: terrenamente divinas e divinamente terrenas. Esse é Jesus. O Filho de Deus. Bendito seja o ETERNO, que nos mostrou seu imenso amor, em Jesus, o salvador.

A explicação que Jesus dá aos alunos – a todos nós, seus alunos – chega até ser hilária, ou tragicômica. Sua afirmação é simples e direta: TUDO QUE, NA PALAVRA DE DEUS, NÃO É DIVINO, VIRA BOSTA. Ponto.

E é isso mesmo, tudo que pretende nos alimentar e não o faz, sai em forma de fezes, vai para a latrina. Foi isso que ele disse. Nada mais. O ensino religioso humano e bosta, para Jesus são a mesma coisa.
Mas nem isso contamina. Nem esse monte de fezes contamina, pois quem age nos filhos da salvação é o espírito Santo que nos convence de tudo.

O que nos contamina é o que sai da nossa boca. O que nos contamina é o que somos, e somos o que falamos não o que fazemos. Somos o que falamos, porque a fala vem da mistura da emoção e da inteligência. A fala é a ação dessa mistura intelecto-emocional. Diante do que falamos – seja o que for e para quem for – nossas atitudes não falam nada, nossa fala, diz tudo. SOMOS O QUE FALAMOS. “Porque de dentro do coração da pessoa, procedem: maus pensamentos, imoralidade sexual, roubo, assassinato, adultério, cobiça, rancor, engano, indecência, inveja, calúnia, arrogância e insensatez. Todas essas coisas perversas procedem de dentro da pessoa e a tornam impura.”

Termino esse texto sem amarrá-lo, sem defini-lo, sem empregá-lo à vida. Deixo essa responsabilidade com você. Saiba.

SOMOS O QUE FALAMOS, E NÃO O QUE FAZEMOS.
Deus lhe abençoe.


domingo, 23 de março de 2014

A CASA DA PROVISÃO FICA NO LADO DE CIMA, ONDE O VENTO É CONTRÁRIO.



Continuando o estudo do livro de Marcos...

“Jesus fez os alunos – discípulos – entrarem imediatamente no barco e irem adiante dele para a outra margem do lago, em direção a Beit-Tzaidah, enquanto ele despedia as multidões. Depois disso, ele subiu às montanhas para orar. Quando caiu a noite, o barco estava bem distante, e ele estava sozinho na margem. Viu que estavam com dificuldade para remar, porque o vento era contrário. Então, por volta das quatro horas da manhã, Jesus foi na direção deles andando sobre o lago. Queria chegar até eles; mas, quando o viram andando sobre o lago, pensaram tratar-se de um fantasma e começaram a gritar; pois todos eles o haviam visto e ficaram aterrorizados. Entretanto, ele lhes disse: ‘Coragem, sou eu. Parem de ter medo!’. Ele entrou no barco, e o vento cessou. Eles estavam completamente pasmos, porque não haviam entendido o que acontecera em relação aos pães; ao contrário, o coração deles foi endurecido.
Depois da travessia do lago, pararam em Ginosar – Genezaré – e ancoraram. Tão logo saíram do barco, as pessoas reconheceram Jesus e começaram a percorrer toda a região levando pessoas doentes em macas a qualquer lugar onde dissessem que ele estava. Aonde quer que ele fosse, em aldeias, cidades ou no campo, levavam os doentes ao mercado. Imploravam-lhe que deixassem-nos tocar mesmo que na sua roupa, e todos os que tocavam nelas eram curados.” Marcos 6:45 a 56.

Depois de terem aprendido da maneira mais desconcertante, que o verdadeiro milagre não está em consubstanciar nada em pão e nada em peixe, mas sim dividir seus “pães” e seus “peixes” com quem nada tem, os alunos de Jesus, foram por ele, despedidos, mandados embora. O texto mostra a pressa do mestre em se ver livre dos alunos – ainda – famintos da confiança que vem do alto; são quase que empurrados para dentro de um barco. Enquanto eles partiam talvez sem entender nada, Jesus ficava para “despedir as multidões...”.

A direção que Jesus deu aos alunos, foi a cidade de Beit-Tzaidah (Betsaida), do outro lado do lago. Mais uma vez a figura do “outro lado”, se mostra no ensino do Filho de Deus. Betsaida, é a junção das palavras Beitcasa e Tzaidahprovisão, alimento. Jesus mandara seus alunos para a “Casa da Provisão”; agora não para o “lado de dentro”, mas para o “lado de cima”. Enquanto eles navegavam para esse “lado de cima”, Jesus caminhava para o “seu lado de cima”. O lugar “de cima” para onde Jesus foi, é uma montanha.

A figura da montanha, tem no imaginário religioso, lugar especial e místico. A montanha representa nesse imaginário o lugar onde “Deus está”. Mas Jesus não compartilha da mística religiosa, para ele a montanha é lugar para ser transposto, escalado, conquistado, vencido. E é nessa perspectiva que ele escala e vence a montanha. Depois de vencer, ele vai orar. Mas a oração não é para os vencedores, é para os lutadores, para os que estão subindo suas montanhas particulares. A montanha que Jesus subiu para orar, era somente um estágio da verdadeira “montanha” que ele estava para subir. O madeiro.

Enquanto Jesus falava com seu Deus, no seu “lado de cima”, os alunos remavam contra o vento. Sem saber que haviam chegado no “lado de cima” para o qual Jesus os mandara, não perceberam que a “casa da provisão” lhes aprovisionaria de fôlego, de ar, de entusiasmo, de vivacidade, de vigor, de coragem, de paciência, de disposição, de espírito profético, de desejo pelo sagrado, de caráter moral, de capacidade. Bastava orar. O “vento contrário”, era o contrário a tudo que o Espírito – vento – aprovisiona aos consolados por Ele. Aqueles alunos estavam remando contra o vento, não se deixando levar pelo Espírito que os queria possuir e ensinar.

O texto diz que “ao ver” que seus alunos remavam contra a “maré de vida” que os queria possuir, resolver ajudar-lhes. Todo socorro acontece quando a pessoa que é socorrida não conseguiria pelas próprias forças “se salvar”, então a “salvação” precisa ser externa. E foi isso que Jesus fez, teve de salvar seus alunos, porque mais uma vez não haviam entendido a parábola da “casa da provisão” que o Mestre lhes estava ensinando. O socorro de Jesus chega com assombro e com medo. Jesus caminhava sobre as águas.

A salvação de Jesus sempre será “assombrante”, sempre será amedrontadora. Sempre será porque ele nunca deixa seu “lado de cima”, ele nunca larga as mãos de quem O carrega. Seu Pai, o Eterno. Naquele episódio, Jesus “saiu” do seu “lado de cima”, para o “lado de baixo” dos alunos. Ele “saiu” de sua “casa de provisão”, para a “casa da desprovisão” dos alunos. Em outro evangelho, Pedro pede para ir ao encontro de Jesus, ainda sobre as águas, mas sua falta de segurança no “lado de cima”, lhe deixou afundar.

Depois que o assombro e o vento passaram, Jesus e seus alunos chegam ao lugar geográfico, do outro lado do lago. O lugar é a cidade de Genezaré, no hebraico Ginesar ou Ginosar que significa “harpa”. As harpas são instrumentos musicais, e sempre que as ouço ou lembro delas, me vem a mente o Salmo 150. Penso que naquele momento, o “lugar das harpas”, o “lugar do louvor” é o lugar óbvio para quem está subindo seus montes, enfrentando seus medos, mas sempre seguro no “lado de cima”, o lugar da salvação. Diz o texto que todos da “cidade das harpas” e das cidades vizinhas, em coro, foram até o salvador, levantaram de suas macas, deixaram seus comodismos, enfrentaram seus caminhos, suas estradas, seus temores, suas dores, para pelo menos, tocarem num pedacinho de roupa daquele que salva. E foram salvos. Eles, os salvos, seguraram com as duas mãos, no “lado de cima”, na “provisão” de vida que lhe foi ofertada por Deus.

É por isso que: A CASA DA PROVISÃO FICA NO LADO DE CIMA, ONDE O VENTO É CONTRÁRIO.


Deus lhe abençoe.
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domingo, 16 de março de 2014

DIVIDIR PARA MULTIPLICAR



Em minha opinião o que mais atrapalha o entendimento do que está ESCRITO na Bíblia, são os “jeitinhos” dados pelos “estudiosos”. Um desses “jeitinhos”, é a introdução no corpo do texto, dos “intertítulos”; aqueles textinhos que titulam o assunto possivelmente contido no texto consequente. Essas divisões foram introduzidas no corpo do texto bíblico por Eusébio de Cesareia, um bispo de Cesareia, reconhecido como o “pai da história da Igreja”. Foi possivelmente esse bispo que dividiu os textos bíblicos em assuntos ou temas, dando-lhes um título. E é nesse momento que o leitor bíblico que desconhece tal fato, acha que, “tudo que está impresso é original”. O estudo de hoje, propõe uma leitura do que está escrito no texto, sem a influência da divisão eusebiana.

Vamos ao estudo...

"Os que haviam sido enviados se reuniram com Jesus e lhe contaram tudo o que tinham feito e ensinado. Havia muitas pessoas indo e vindo, a ponto de eles não terem tempo para comer. Então Jesus lhes disse: ‘Venham comigo para um lugar onde poderemos ficar sozinhos. Lá vocês descansarão um pouco’. Então eles se afastaram para um lugar à parte. Entretanto, muitas das pessoas que os viram sair, reconheceram-nos, correram a pé de todas as cidades e chegaram ao lugar antes deles. Quando Jesus saiu do barco e viu a grande multidão, começou a lhes ensinar muitas coisas, cheio de compaixão por eles, porque eram como ovelhas sem pastor.

Já era tarde. Os alunos – discípulos – se aproximaram dele e disseram: ‘Este é um lugar afastado, e está ficando tarde. Mande o povo embora para irem aos campos e povoados da vizinhança comprar algo para comer’. Mas ele lhes respondeu: ‘Vocês mesmos devem dar a eles algo para comer!’. Eles disseram: ‘Devemos ir e gastar muito dinheiro com pão e dá-lo para ser comido?’. Jesus lhes perguntou: ‘Quantos pães vocês têm? Vão e verifiquem’. Quando descobriram, disseram: ‘Cinco pães e dois peixes’. Ele ordenou a todos que se sentassem em grupos sobre a grama verde. Eles se sentaram em grupos de cinquenta e de cem. Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes e, olhando em direção ao céu, disse um agradecimento ao Pai. A seguir, partiu-os pães e começou a dá-los aos alunos – discípulos – para serem distribuídos. Ele também dividiu os dois peixes entre todos. Todos comeram tanto quanto quiseram, e os alunos – discípulos – recolheram doze cestos cheios com pedaços de pães e peixes. O número de homens que comeram os pães era de cinco mil.” Marco 6:30 a 44.

Para mim está clara a falta de compreensão do texto acima. Não encontramos o termo “multiplicar”, nem alusão a algum tipo de prática multiplicadora. Encontramos o termo “repartir”chalaq – , que por sua vez tem sua raiz – segundo o dicionário Strong – no termo “Efraim”, que significa: “ser duplamente frutífero” ou “ser frutífero uma segunda vez”. Isso é revelador e muda toda a percepção do “milagre”.

Mas tudo se inicia, no alegre e empolgante retorno dos alunos, que procuram seu mestre, para lhes contar como foram bem-sucedidos em sua missão. Aparentemente alheios aos acontecimentos da morte de João Batista, eles queriam falar ao mestre, de seus sucessos, de suas vitórias, de seus milagres. O texto revela que muita gente estava com eles “a ponto de eles não terem tempo para comer”. Essa menção pode nos levar a entender que ELES ESTAVAM COM FOME. E Jesus os chama para longe da multidão, para que eles pudessem conversar e comer algo. Se isso for verdade, como creio que é, havia comida para eles comerem e Jesus queria que eles se alimentassem com tranquilidade.

Mas essa tranquilidade não foi “encontrada”, esse “lugar tranquilo”, não existiu. Ao contrário, as pessoas famintas do novo, com fome das palavras de Jesus, nunca os deixavam sossegados. O texto diz que o Mestre se compadeceu deles, mas os alunos – seguindo o que está no texto de Marcos – estão com fome e dizem ao Senhor que aquela multidão também estava com fome e que deveria ser mandada de volta para casa, para procurarem o que comer pelo caminho. Mas Jesus sente tanta compaixão daquelas pessoas, que os compara a “ovelhas sem pastor”.

Uma “ovelha sem pastor”, é um animal completamente desprotegido, sem ninguém para lhe providenciar comida. Basta lermos o Salmo 23, onde David compara-se a uma “ovelha com pastor”, e por isso, é cuidada, alimentada e protegida. Mas as relações entre esse episódio de fome e o Salmo 23, não ficam por aqui, elas seguem até o fim, até o “... preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários...”. Adversário é aquele que tenta impedir que “eu” chegue ao “meu” objetivo. O objetivo dos alunos de Jesus era COMER, era achar um lugar onde comer com seu mestre, encontrar um lugar tranquilo, distante de tanta gente, distante de tantos pedidos, longe da multidão. Então, “mandar embora”, “despachar”, “mandar pra longe”, “afugentar”, “despedir”, (...) era tudo que eles queriam que Jesus fizesse. Afinal de contas, aquelas pessoas – tão famintas quanto eles – estavam impedindo que eles comessem tranquilos.

Mas não é assim que Jesus faz. Ele diz aos famintos alunos “... dai-lhes vós de comer...”. Que ordem louca, que ordem mais insana. A resposta vem no tom: “... nós devemos gastar nosso dinheiro para comprar pão para dar para eles?”. Mas a ordem continua: “dai-lhes vós de comer!”. Jesus não pediu que eles “dessem” o que não possuíam, Ele disse para que seus alunos REPARTISSEMchalaq – uns com os outros, um pouco do que tinham para comer.

Esse episódio – pão como comida – me faz lembrar do episódio da “tentação de Jesus”, onde o adversário pede que Jesus transforme pedra em pão. Pão – lechem – , é alimento para ser dividido, comida para ser repartida. A resposta de Jesus é fantástica: “... não é só pão que alimenta o homem, ele – alimento – também provém da palavra – ordem – de Deus.”. E qual seria essa “palavra”? Com certeza não é a Bíblia, mas o que está contido nela. A ordem que ela contém, sua máxima instrução para o “alimento” do ser humano, é: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.” Marcos 12:30 e 31.

Amar ao próximo, cuidar do próximo, isso é amar a Deus. Naquele momento, “alimentar a multidão” era a maior expressão de amor que Jesus ordenava que seus alunos praticassem. Mesmo com fome, eles deveriam dividir o pouco de comida que possuíam uns com os outros e ensinar – na prática – a multidão. Mas eles não entenderam. Estavam com tanta fome que não puderam pensar em ninguém, só neles mesmos.

Mas Jesus intervém e continua o ensino perguntando: “... o que vocês têm para comer?”, e eles respondem sem titubear: “... cinco pães e dois peixes ...”. Estava de bom tamanho. Era só isso que Jesus precisava para ensinar CHALAQ – para todos eles. Agradecendo ao PAI, ao Todo Poderoso, que faz com que a chuva regue a plantação do justo e do ímpio, e o sol brilhe sobre os homens de coração bom tanto quanto brilha sobre os homens de coração mau, Jesus REPARTE a comida com seus alunos, eles uns com os outros, e todos da multidão uns com os outros.

É difícil aceitar o desmonte do “milagre da multiplicação”. Somos todos alunos de Eusébio de Cesaréia, não sabemos ler, fomos influenciados pela titulação errada de um homem bem intencionado que trocou “DIVIDIR” por “MULTIPLICAR”.

Crer na “multiplicação” dos pães é ser egoísta. A “multiplicação” é a tentativa humana de continuar de barriga cheia, pedindo a Deus que nos dê mais para podermos dar. Coisa que nunca acontece, porque quanto mais temos, mais queremos. Acreditar no “milagre da multiplicação” é viver a teologia da prosperidade, onde “o que é meu é meu e o que é teu é teu”. Viver o “milagre da multiplicação” é negar o amor ao próximo.

Esse amor, tão decantado e pregado por todos, como a máxima da vida com Deus, manifesta-se na verdade do MILAGRE DA DIVISÃO. Dividir é tirar do meu, é dar do que tenho, é partilhar o que possuo, é ajudar a quem não tem. ISSO É MILAGRE. Esse milagre não é externo, esse milagre é INTERNO, é ÍNTIMO, é MEU. Quando “você” se divide, é “você” quem vai como doação, quando “você” se divide, é “você” que se torna dádiva. Viver o MILAGRE DA DIVISÃO é praticar “o que é teu é teu, e o que é meu é teu”.

Defendo que Jesus não “multiplicou” mas, “dividiu”. Ensinou a dividir, dividindo. Ensinou a amar, amando. Ensinou, fazendo.

Depois que todos – que a multidão – dividiram o que tinham uns com os outros, sobram 12 cestos cheios de comida – pão e peixe. Se nos alimentamos uns aos outros, se cuidamos uns dos outros, se amamos uns aos outros, nos tornamos filhos de Deus.

Quando David recebe do seu Pastor a mesa farta – cheia de comida – , não é para o castigo “dos que não tem o que comer”, é para que ele – David, eu e você – reparta essa comida com os adversários. Só assim, “nosso cálice” de bondade transborda e o olhar misericordioso do ETERNO, nos seguirá, nos socorrerá, TODOS OS DIAS DA NOSSA VIDA. Só mora na Casa de DEUS, quem é capaz de alimentar, ajudar, cuidar, a todos que batem na porta da CASA DO SONHOR!

Essa é a verdade no texto, essa é a verdade dos fatos.

Pense nisso. Divida seu pão, seja ele qual for.

Deus lhe abençoe.

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Observação: No texto de Marcos, o primeiro evangelho a ser escrito, não existe a figura do menino com seus “cinco pães e dois peixinhos”; essa descrição é encontrada no evangelho de João (João 6:1 a 14). Em Marcos Jesus pergunta aos seus alunos o que ELES teriam para comer.

sábado, 8 de março de 2014

O DESEJO, A VINGANÇA E OS HOMENS SEM CABEÇA.



O artigo de hoje, trata de assunto aparentemente irrelevante para a crença hodierna. Poderíamos nos perguntar: o que tem haver um profeta decapitado, com o ensino de Jesus? A resposta primitiva seria: Nada! Porém nada que está nos textos sagrados é “nada”, tudo tem sua importância e essa “porta” precisa ser encontrada e aberta para que possamos aprender com esse ensino. Portanto deixarei minhas impressões sobre o texto.

Continuando o Estudo do Livro de Marcos...

“Enquanto isso, o rei Herodes ouviu falar dessas coisas, porque a reputação de Jesus havia se tornado bem conhecida. Algumas pessoas diziam: ‘João, o Imersor, ressuscitou dos mortos; por isso, operam nele poderes miraculosos’. Outros diziam: ‘Ele é Elias’. E ainda outros afirmavam: ‘Ele é um profeta, como os antigos profetas’. Mas quando Herodes ouviu essas coisas, disse: ‘João, a quem decapitei, ressuscitou!’.

O próprio Herodes ordenou a prisão de João, que o amarrassem e colocassem na prisão, por causa de Herodias, mulher de Filipe, seu irmão. Herodes havia se casado com ela, mas João lhe dissera: ‘É uma violação da Torah você se casar com a mulher de seu irmão’. Por isso, Herodias o odiava e queria matá-lo. Mas não podia fazê-lo, porque Herodes tinha medo de João e o protegia, por saber que ele era um justo, um homem santo. Sempre que o ouvia, ficava profundamente abalado; mesmo assim, gostava de ouvi-lo.

Finalmente a oportunidade chegou. Herodes ofereceu um banquete aos nobres, oficiais e homens importantes da Galileia, no seu aniversário. Quando a filha de Herodias entrou e dançou, agradou a Herodes e aos convidados. O rei disse à jovem: ‘Peça o que quiser, e lhe darei’. E prometeu a ela: ‘Seja o que for que me pedir, eu lhe darei: até a metade do meu reino’. Ela saiu e perguntou à mãe: ‘Que pedirei?’. Ela respondeu: ‘A cabeça de João, o Imersor’. A jovem voltou imediatamente ao rei com o pedido: ‘Desejo receber neste mesmo instante, em uma bandeja, a cabeça de João, o Imersor’. O rei ficou estarrecido, mas, por causa da promessa feita perante os convidados, não quis descumprir a palavra dada à jovem. O rei enviou imediatamente um soldado de sua guarda pessoal com ordens para trazer a cabeça de João. O soldado foi, decapitou João na prisão, trouxe sua cabeça em uma bandeja e entregou à jovem, e esta a deu à sua mãe. Quando os alunos – discípulos – de João ouviram isso, vieram, levaram o corpo e o colocaram em um túmulo.” Marcos 6:14-29

Esse é um relato macabro. A história contada acima, mostra como podemos ser maus. O relato encontrado no evangelho de Marcos revela quanta maldade podemos fazer, quando colocamos nossos desejos ou nossa vingança acima da razão. Continuando na linha proposta para esse estudo, observo de forma não literal os relatos dessa história macabra.

O texto se inicia com um “Enquanto isso...”. Esse “enquanto isso” é exatamente o ensino da vida pacificada pelo retorno ao cuidado mútuo. O ensino que estava sendo espalhado por todos os lados, na boca e na vida dos alunos de Jesus, segundo o texto, teria chegado ao conhecimento de um rei Herodes. Possivelmente Herodes Antipas, filho do rei Herodes, o Grande, construtor do grande templo. Esse Herodes, estava vivendo com a mulher de outro Herodes, seu meio-irmão Felipe. Essa relação ilícita havia sido denunciada pelo profeta João, primo de Jesus.

Quando as notícias chegaram ao conhecimento daquele Herodes, ele se inquietou e afirmou que Jesus seria a encarnação de João, ou como propõe o texto em português, o próprio João ressuscitado. É possível perceber o temor alegre de Antipas que viu nuanças semelhantes entre João e Jesus. Temor porque ele, Antipas, havia mandado decapitar João, e na mente doentia de um rei sem cabeça, o profeta poderia vir para “lhe buscar”; alegria pois mesmo tendo assassinado João, ele iria ouvir novamente as admoestações do – quem sabe – amigo profeta.

Creio que Herodes mantinha João preso para poder ouvir em particular o que Deus falava por meio do dele, e não somente porque suas palavras fossem ditas em “praça pública”. Herodes tinha ao seu alcance a voz do profeta. Esse parece o comportamento de muitas pessoas que frequentam os templos hoje em dia. Vão lá somente para “apanhar”; frequentam anos a fio, se “arrependendo” dos mesmos “pecados”; passam a vida toda pedindo perdão pelos mesmos erros. Se parecem em muito com esse Herodes. Talvez essa seja a lição que podemos tirar do episódio de Herodes estar mantendo João preso. Essa relação adoecida onde o homem de Deus cutuca a ferida do pecador, vem desde o tempo de João e Herodes.

Se observarmos com atenção, a enfermidade sexual de Herodes vai além da mera relação libidinosa e extraconjugal com a mulher de seu irmão Felipe. Ela passa pelo masoquismo, e isso se reflete na relação adoecida com João. Mesmo sabendo-se um degenerado, o rei gosta de sofrer ao ouvir o vociferar Divino, proveniente da boca do profeta, e por mais estranho que pareça, João participa dessa relação ativamente por não deixar de falar contra os atos libidinosos do rei.

Para podermos entender o que estava acontecendo e porque o profeta João estava se intrometendo na vida do rei, é preciso dar uma rápida olhada na história. Não é meu interesse fazer um estudo histórico sobre os herodianos, quero apenas fazer algumas ligações históricas, para que possamos entender o grau de loucura da família dos Herodes.

Após a Morte de Herodes o Grande, o imperador César Augusto, dividiu o reino entre três de seus filhos: Herodes Arquelau governou Judéia, Samaria e Iduméia; Herodes Antipas, governou Galiléia e Perea; Herodes Filipe II governou Betânia, Gaulanítide, Traconites e Auranítide. Com uma de suas esposas, Mariane, Herodes o Grande teve duas filhas, Salimpsios e Cipros, e dois filhos, Alexandre e Aristóbulo IV. Esses quatro filhos ficaram órfãos logo cedo, após seu pai enlouquecido, ter matado sua mãe sob a acusação de adultério. Posteriormente, os dois irmãos também foram mortos pelo próprio pai sob a acusação de rebelião. Porém antes da morte, Aristóbulo IV, casou-se com uma mulher chamada Berenice com quem teve cinco filhos: Herodias, Herodes de Calcis, Herodes Agripa I, Aristóbulo V, e Mariana. Herodes Antipas, o assassino de João, também filho de Herodes o Grande, havia nascido aproximadamente em 20 a.C., e estima-se que ele poderia ter entre 48 e 52 anos, quando João foi morto. Já Herodias, sua meia-sobrinha, e pivô da morte do profeta, possivelmente tenha nascido em 15 a.C., e teria, na época, entre 39 e 45 anos. Salomé, sua filha com Herodes Felipe, meio irmão de Antipas, poderia ter entre 18 e 24 anos quando foi desejada pelo tio-avô.

O que salta aos olhos de quem lê a história narrada nas linhas do evangelho de Marcos, é o ódio que Herodias sente pelo profeta. Sem conhecer a história fica difícil entender o motivo de tamanho ódio, mas depois de saber minimamente quem era Herodias e como pode ter sido sua vida, parece menos difícil perceber os motivos que deixaram aquela mulher enlouquecida com a intromissão de João em seu relacionamento com Antipas. Ela era filha de Arquelau IV, filho revoltado com o pai e por esse motivo, fora morto junto com o irmão. A menina Herodias deve ter assistido o estrangulamento do pai, por ordem do próprio avô. Não é difícil imaginar que ela pode ter ido até o avô pedir pela vida do pai, pedido que não fora atendido. Da mesma forma que seu pai, Herodias deve ter crescido nutrindo ódio contra toda e qualquer autoridade herodiana. Seu pai cresceu nutrindo o mesmo ódio contra o pai Herodes, por ter assassinado sua mãe. A filha parece crescer com o mesmo ódio.

Para mim é fácil presumir que o trabalho da vida de Herodias era destruir a família dos Herodes, acredito que seu “divórcio” de Herodes Felipe, se deu por ela ter conseguido fazer fracassar a vida política do marido, que segundo a história, tornou-se uma pessoa indesejada pelo império Romano. Ainda segundo essa linha de pensamento, aproximar-se de outro filho do grande Herodes para destruí-lo era um plano obvio para quem respira a vingança. Não é difícil ver na história essas situações de vingança, onde os “vingadores” usam os próprios filhos como instrumento para a vingança. Parece que não foi diferente nesse episódio. Diz o texto que “... finalmente a oportunidade chegou.” Porque “Herodes ofereceu um banquete aos nobres, oficiais e homens importantes da Galileia no seu aniversário”. Que melhor oportunidade?

Mas qual o motivo de tanto ódio direcionado ao profeta João? Quem sabe, as admoestações do profeta não estivessem tirando Antipas das mãos de Herodias? Quem sabe as admoestações de João não viessem a salvar a vida daquele Herodes, da vingança planejada por Herodias? São conjecturas plausíveis.

Seja como for, o que importa, é que naquele momento, a enfermidade sexual da família herodiana foi o instrumento usado por aquela mulher com sede de vingança. Sua filha, Salomé, dançou e encantou ao tio-avô. A tradução do texto é purista; o original está carregado de libido; o desejo do tio-avô Antipas, era possuir sexualmente a sobrinha-neta, e em troca desse prazer ele ofereceu até a metade de seu reino. Tudo certo, tudo como o combinado; depois de se embebedar com o vinho e com o desejo pela filha de sua mulher o rei descabeçado abre a guarda e promete até o que não tem, promete o que não lhe pertence e a promessa foi aceita. Depois de ouvir o conselho da mãe sobre o que deveria pedir, ela exige e a cabeça pensante do profeta João, o imersor. Aquele que batizava, aquele que identificava as pessoas com o rumo que elas deveriam tomar, aquele que marcava com água a nova direção de vida, aquele que ungia a cabeça dos redimidos pelo arrependimento. Com a cabeça de João, viriam seus olhos que tudo viam, sua boca que tudo falava.

“Tudo, menos a vida de meu profeta de estimação”, pode ter pensado ou cochichado consigo mesmo o rei descabeçado. Mas não havia o que fazer, não havia como dizer “não”. Imagino que todo o desejo, toda a virilidade do rei deve ter se esvaído como o sangue do profeta. Não havia mais virilidade, não havia mais desejo, só havia a consumação do plano destrutivo de uma mulher adoecida pelo sexo, que adoece quando não é mantido sob controle. A vingança muitas vezes vem nos braços dos amantes sexuais, que envenenam com beijos e carícias. Foi assim com Herodes Antipas, é assim com qualquer um que não põe em Deus e nas suas Leis o seu prazer.

A história conta que depois de Jesus ter sido condenado a morte, Herodias fez com que Antipas fosse até Roma, requerer o reinado sobre a Judeia. Esse fato teria desgostado ao Imperador, causando a destruição política e posterior morte de Antipas. Mais uma vitória para o plano de vingança de Herodias.

E hoje, como aplicar os ensinos contidos nesse texto aparentemente estranho a nossa religiosidade? Por enquanto, vejo algumas:

1) Todas as vezes que os desejos prevalecerem sobre a razão, alguém perderá a cabeça;
Não é difícil entender isso, basta olharmos o noticiário, onde famílias são destruídas por pessoas descabeçadas, que não conseguiram controlar sua libido e buscaram o prazer com outra pessoa que não seus respectivos cônjuges.

2) Todas as vezes que um profeta de Deus mantiver um relacionamento com alguém sexualmente enfermo, ele irá perder a cabeça;
Nem precisa ser um relacionamento físico, basta ser qualquer relacionamento que não tenho diretrizes definidas pelo sacerdote. Todos nós sacerdotes, somos tentados a servir de salva-vidas para pessoas com problemas sexuais, mas esquecemos que muitas vezes podemos passar de “salvadores” à “náufragos”. Não há como brincar com fogo sem ser queimado por ele. Todas as vezes que um sacerdote não tiver seu foco no objetivo de Deus ele irá perder a cabeça, a família, o ministério, a moral. Só não a salvação, mas recomeçar sempre é mais difícil que resistir. Nesses momentos, é melhor dizer o que Jesus disse: “...vai, larga tudo e me segue...”. Se não for assim, “cabeças vão rolar”.

3) Sempre que nosso sentimento de justiça for maior que o senso de justiça Divina, iremos pedir a cabeça de alguém e nesse momento, a nossa irá junto para a bandeja;
Nos dias de hoje, nosso justicismo está à flor da pele. Não aceitamos mais tanta injustiça, tanto comportamento injusto, tanto comportamento leviano, bandido, desrespeitoso. Estamos cheios de tanta roubalheira e isso tende a nos fazer justiceiros. Seja agindo, seja influenciando por palavras ou textos. Mas a atitude correta, está no caminho do meio. Nem “sangue de barata” nem “sangue nos olhos”. Precisamos agir de forma divina, entregando a Deus nossas ansiedades porque ele tem cuidado de nós. Sem isso, nossa cabeça vai para a bandeja (...) .

4) Sempre que nos acharmos os “donos da verdade”, estaremos sendo sepultados, mesmo que sejamos reconhecidos por muitos como boas pessoas.
Na mesma esteira do justicismo, estão os “donos da verdade”. Aqueles que acham que sabem de tudo, aqueles que se acham os melhores, aqueles que se julgam insubstituíveis. Esses são sepultados por seus seguidores, por seus admiradores, que por não saberem quem são, rapidamente trocarão de ídolo. Quem não sabe quem é, pensa ser algo maior do que realmente é. Esses são os sepultados sem cabeça e serão esquecidos.

5) Sempre que nosso desejo de vingança for maior que nossa razão, estaremos dançando para os mercadores de emoções, que nos oferecerão seus reinos, se nos ajoelharmos em adoração ao ódio e à vingança.
Aos vingadores fica somente o aviso: o tentador, o príncipe do século, o senhor da maldade estará sempre disposto a oferecer não só a metade, mas todo o seu reino, toda a sua riqueza, tudo que diz possuir para ver você bebendo do acre-doce vinho da vingança. Não é fácil, mas é melhor esperar a vingança de Deus. Se você acredita na palavra d’Ele, leia: “A VINGANÇA PERTENCE A DEUS ...” Romanos 12:19; Hebreus 10:30.

Enquanto os alunos de Jesus espalhavam a semente da vida que cuida, Herodes perdia a cabeça por desejar a sobrinha-neta e possuir a sobrinha. Enquanto a vida vinda por Jesus era plantada com autoridade dos que sabem quem são, Herodias arrancava a vida do profeta que mantinha viva a vida do rei. Enquanto Jesus curava, Herodes matava.

Concluindo, peço que você tenha a coragem de rever seus valores, seus comportamentos, seus pensamentos, seus desejos, seus ódios, suas vinganças, seus amores, seus prazeres, (...). Não se deixe enlouquecer nem pelo desejo, nem pela vingança. Caso contrário, todos perderão a cabeça.


Deus lhe abençoe.