"Sempre fomos livres nas profundezas de nosso coração, totalmente livres, homens e mulheres.
Fomos escravos no mundo externo, mas homens e mulheres livres em nossa alma e espírito."
Maharal de Praga (1525-1609)

domingo, 13 de julho de 2014

TODO MUNDO QUER VIVER PARA SEMPRE, MAS NINGUÉM QUER MORRER...

... continuando o estudo do trecho de marcos oito. Vamos ao texto.

“Jesus e os alunos – discípulos – continuaram percorrendo as cidades de Cesareia de Filipe. No caminho, ele perguntou a eles: ‘Quem as pessoas dizem que eu sou?’. ‘Alguns dizem que você é João, o Imersor’, eles lhe disseram, ‘outros, que é Elias – Eliyahu –, e há quem afirme: um dos profetas’. ‘E vocês’, ele perguntou, ‘quem dizem que eu sou?’. Kefa respondeu: ‘Você é o Machiach – Messias’. Então Jesus os advertiu de que não dissessem nada, a ninguém, a seu respeito. Ele começou a lhes ensinar que o Filho do Homem deveria suportar muitos sofrimentos, ser rejeitado pelos anciãos, principais Sacerdotes e mestres da Torah. Após isso, seria morto, mas, depois de três dias, ressuscitaria. Ele lhes falou claramente sobre o assunto. Pedro o levou para o lado e começou a repreendê-lo. Entretanto, Jesus se virou e, olhando para os alunos – discípulos – repreendeu Pedro: ‘Afaste-se de mim, Satan! Seu raciocínio procede de uma perspectiva humana, e não do ponto de vista de Deus!’.”.
Marcos 8:27 a 33

Após tipificar o “ser” Filho de Deus como um “filho da humanidade”, um ser sofredor, rejeitado pelo que é, pelo que pensa, pelo que vive, pelo que sente. Essa rejeição vem dos sacerdotes, dos donos da religião, daqueles que se entendem representantes de Deus na terra. Depois disso tudo, depois de lhes fazer entender que ele, Jesus, se tornaria o primogênito do Pai, aquele que primeiro nasceria por meio desse ritual mortal, ele lhes afirmou que ressuscitar e viver para sempre é o prêmio para todos aqueles que tiverem a coragem de aceitar o fato de ele ser o Filho de Deus.

Mas há uma questão interessantemente subliminar aqui: para ressuscitarmos, temos de morrer primeiro. É nesse ponto que entendo algumas variantes do ensino de Jesus para os dias de hoje.

Naquele tempo, naquele dia, o Mestre estava ensinando aos seus alunos que a morte é um ritual de passagem necessário para a vida. Não há outra forma de vivermos uma nova vida sem que a morte realize isto. Para nascer o feto tem de morrer de sua vida de feto para se tornar um “recém nascido”; para se tornar uma mulher a menina tem de morrer por meio do sangramento menstrual; para se tornar um homem o menino tem de abandonar a casa paterna e ser “dono” de sua própria casa. Para viver um grande amor o casal tem de deixar morrer o que lhes impede de realizar o sonho. Não há vida sem que primeiro haja a morte. Essa é a mística que une família e tragédia em um só ato.

Viver para sempre é o que nos espera como seres humanos, a morte é um rito de passagem para essa eternidade. Mas ninguém quer morrer para viver pra sempre, todos queremos eternizar o que é finito, findável, terminável, inconstante (...). Todos, queremos eternizar o que não pode ser eternizado. Só há eternidade por meio da não eternidade; só há infinidade por meio da finitude. É dessa afinidade entre morte e vida que nascem os filhos de Deus, aqueles que viverão para sempre.

Estar vivo não é viver. Estar vivo é não morrer. Pode-se estar vivo sem se estar vivendo, pode-se apenas estar “empurrando a vida com a barriga”, pode-se estar acomodado a um estado de tragédia onde viver é um sonho distante. Enfrentar a tragédia é romper a morte, morrendo para poder viver a vida.

Por outro lado, viver não tem muito haver com estar vivo. Alguém que está morrendo pode viver a vida mais intensamente que alguém que está vivo, mas não aproveita da vida. Só vive quem tem a coragem de enfrentar a morte daquilo que impede que a vida aconteça, seja uma mudança de lugar, uma mudança de companhia, uma mudança de emprego, uma mudança de atitude, (...). Na maioria das vezes as mudanças tem representado a morte para a maioria de nós. “Mudar é preciso, mas não é fácil” e não estou dizendo o contrário.

Posso entender que quando Jesus disse que para que ele viesse a ser quem era, teria de morrer primeiro e ressuscitar depois, entendo que ele estava falando, não somente do fato real de sua morte e ressurreição, como ocorreu, mas também de um ritual de passagem para nossa vida. Quando enfrentamos o que nos mata, morrendo pelo que acreditamos, nosso estado de morte é passageiro, no discurso de Jesus, três dias. Mas em nossa vida, nem todo estado de morte dura apenas três dias, uns podem durar 30 anos ou mais. Porém o importante é que ao enfrentarmos a morte, morrendo, nossa ressurreição é fato. Não há como ressuscitarmos se não enfrentarmos a morte. Não há nova vida sem a morte da velha vida.

Muitas vezes estamos mortos vivendo de lembranças. As lembranças embalam o lúdico, o imaginário, mas são como droga que anestesia da certeza de que precisamos matá-las, deixando-as para podermos realizar a vida. Viver não é fácil e não estou dizendo que é, mas viver a vida é divertido, uma experiência única e eterna. Sofremos por querer eternizar o que não pode ser eternizado. As situações passageiras da vida não podem ser eternizadas, as relações não podem ser eternizadas e Salomão em sua sabedoria nos diz isso no seu lamento eclesiástico:

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora; tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.” Eclesiastes 3:1 a 8.

Somente a vida é eterna, mas ela só acontece por meio da morte. Essa me parece ser a mística da vida que vem da morte. Ainda incompreensível para mim, ainda assustadora, mas completamente aceitável. Essa passou a ser a ordem de Jesus para todos que querem segui-lo: “...pega tua cruz e me segue”, ou em tradução livre: “... pega o que te mata e me segue”.

Todos, queremos viver para sempre, mas nenhum de nós aceita morrer primeiro para que isso ocorra. Viver para sempre é fato inquestionável. Fomos gerados pelo ETERNO e por isso a eternidade nos pertence, resta saber que tipo de vida eterna queremos ter.

Pense nisso, reflita sobre isso, se deixe morrer e viva a vida.


Deus lhe abençoe.

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